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Assessoria de Comunicação


A rua como espaço de prevenção

Instituições que trabalham com jovens em situação de rua em três municípios se reúnem em Brasília

 

Brasília, 2 de maio - Cerca de 40 profissionais de instituições governamentais e não governamentais que trabalham com meninos e meninas em situação de rua no Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo se reuniram pela primeira vez esta semana em Brasília para trocar experiências e fortalecer a rede de projetos de atenção à esta população. No fim do encontro de dois dias, os participantes elaboraram uma proposta de guia de boas práticas em atenção à saúde para crianças e adolescentes em situação de rua, com foco em doenças sexualmente transmissíveis (DST) e HIV.

O Programa Nacional de DST/Aids (PN), do Ministério da Saúde, desde 2005 apóia o fortalecimento de rede nestes municípios, ao promover reuniões e capacitações em parceria com as coordenações estaduais e municipais de DST e aids. Assim, foram formados grupos locais que são referência para as ações voltadas à população em situação de rua, com foco na prevenção das DST/HIV/Aids e acesso a serviços. No ano seguinte começaram os projetos-piloto do PN com o Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC) com foco em DST e HIV em Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro.

O objetivo dos projetos é aprimorar o trabalho em redes nos três municípios. Alguns dos resultados observados foram a articulação ampliada entre as ONGs e serviços de saúde, sensibilização e capacitação de profissionais de saúde e educadores sociais para atender crianças e adolescentes em situação de rua, formulação de agendas comuns e a formação de agentes de prevenção.

Este primeiro encontro das redes dos três municípios - em Brasília, entre 28 e 29 de abril - foi apoiado pelo Fundo das Nações Unidas para a infância (UNICEF). Participaram da reunião instituições governamentais e não governamentais de Salvador (Projeto Axé, Cedeca Bahia e IBCM - Instituto Beneficente Conceição Macedo); de São Paulo (Projeto Quixote, Cedeca Paulo Freire e Casa Taiguara) e do Rio de Janeiro (Child Hope, Excola e Se Essa Rua Fosse Minha).

A rua como problema

Dificuldades de encaminhar os jovens para serviços sociais e de saúde, o estigma em relação à população e problemas de articulação com órgãos do governo foram alguns dos temas discutidos no encontro. "Muitas vezes não temos para onde encaminhar os jovens. Um agravante foi a chegada do crack de forma avassaladora à população em situação de rua. Muitos acabam contraindo HIV, pneumonia e tuberculose", conta Cláudio Barría, coordenador de projetos da ONG Se Essa Rua Fosse Minha, do Rio de Janeiro, parte da Rede Rio Criança.

A rua como solução

O trabalho em rede vem mostrando como a prevenção na rua pode ser eficaz. Em São Paulo, instituições levam jogos educativos aos meninos e meninas que estão na rua para trabalhar prevenção às DST e outras doenças. No Rio de Janeiro, a Rede Rio Criança - formada por 17 instituições - promove encontros para jovens em situação de rua, com música, dança e arte circense. "Muitos acabam gostando e resolvem seguir profissionalmente a carreira no circo. Temos diversos jovens que foram parar em circos famosos no Brasil e no mundo, como o Cirque du Soleil", conta Cláudio Barria.

"Vemos que há mais resultado quando trabalhamos com os jovens na rua que em abrigos. Eles têm um vínculo com a rua, sensação de pertencimento, lá eles construíram suas histórias", disse Dayse Tozzato, da ONG Child Hope, do Rio de Janeiro. "Tenho lembranças boas e ruins de viver 11 anos na rua. Tenho imenso carinho pelos meus colegas. Lá a gente divide roupa, cama e comida. Não é tão difícil tirar a criança da rua. Impossível é tirar a rua da criança", conta Aline Travassos Arruda, de 18 anos, que morou 11 anos nas ruas do Rio de Janeiro.

No ano passado, depois de participar dos encontros promovidos pela Rede Rio Criança, Aline resolveu voltar para a casa da mãe, no subúrbio do Rio. "Percebi que eu fiz 18 anos. A ficha caiu. Na mesma época fui convidada a representar os jovens em situação de rua num seminário, com a presença de juízes e pessoas importantes. Naquele momento me senti valorizada. Pensei que poderia voltar a estudar e fazer parte das ações de prevenção com meninos e meninas como eu", disse ela. Hoje Aline recebe apoio de uma instituição para fazer curso de jardinagem pela manhã e supletivo à noite. À tarde participa das atividades da Rede Rio Criança e da Child Hope.

Sexo e drogas

Relatos mostram a importância do trabalho preventivo na rua. "A sexualidade na rua é muito intensa", conta Aline. "E quando se usa droga é ainda mais louco. Pode acontecer em qualquer lugar e a qualquer hora. Quase ninguém usa camisinha".

As redes de apoio buscam atrair os meninos e meninas de forma divertida, geralmente com jogos, música, dança e outras formas de expressão artística. É por meio destas abordagens que os temas de prevenção, cuidado próprio, sexualidade e abuso de álcool e outras drogas são discutidos com o público-alvo.

Desafios

Há desafios para incluir a população em situação de rua aos serviços de atenção social e saúde. Estigma, preconceito e discriminação estão fortemente vinculados ao atendimento desse grupo. Mas a aproximação de instituições do governo e da sociedade civil abre caminho para a construção e consolidação de políticas públicas de promoção à saúde, com prevenção, diagnóstico e assistência às DST/aids. Para Cláudio, "a sociedade tem que se envolver mais na formulação e monitoramento de políticas públicas. O controle social é fundamental. E os jovens em situação de rua precisam ser protagonistas. Precisamos ouvi-los".

                                                                       Cláudio Barría, da ONG Se Essa Rua Fosse Minha, Rio de Janeiro

Saiba mais sobre o trabalho das instituições:


Salvador:
Projeto Axé
Cedeca Bahia
IBCM - Instituto Beneficente Conceição Macedo

São Paulo:

Projeto Quixote 
Cedeca Paulo Freire 
Casa Taiguara 

Rio de Janeiro:
Rede Rio Criança
Child Hope do Brasil 
Se Essa Rua Fosse Minha 
Excola 

Saiba mais sobre o Progama Nacional de DST/Aids

Saiba mais sobre o Escritório da ONU contra Drogas e Crime (UNODC)

Saiba mais sobre o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF)



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